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A TUA VONTADE E NÃO A MINHA

“Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los? Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça…”  Lucas 18.7-8 (ARA)

Jesus em Lucas 18.1 nos exorta a orar sempre e nunca esmorecer porque, se até um juiz ímpio e injusto pode cansar-se e atender à petição de uma viuva, quanto mais nosso Deus, Pai de infinito amor, não nos concederá o que necessitamos? No entanto, não podemos esperar que Deus atenda a tudo o que Lhe pedimos em oração, pois se até um pai humano muitas vezes nega algo que o filho pede porque sabe que aquilo lhe será prejudicial, que dirá Deus, que sabe o que é melhor para nós a longo prazo? Por isso devemos sempre finalizar nossas orações com a humilde petição: mas que se faça a Tua vontade e não a minha!

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SER FELIZ – O QUEBRANTAMENTO DO CORAÇÃO

“Felizes as pessoas que choram, pois Deus as consolará”, disse Jesus em Mateus 5.4 (NTLH). Não parece paradoxal? Como pode alguém ser feliz, bem-aventurado, afortunado, ditoso, enquanto derrama lágrimas abundantes e incontidas? Observemos também que a palavra grega que significa chorar é a mais pungente que existe no idioma de Platão para designar sofrimento ou dor, sendo usada para expressar o sentimento de quem perdeu um ente muito querido, como quando Jacó, em Gênesis 37.34, acreditando que José havia morrido, enlutado pranteou o filho por muitos dias.

 

Esta bem-aventurança, em seu amplo significado, pode ser interpretada primeiramente como felizes aqueles que suportaram a tristeza mais profunda que a vida pode oferecer, referindo-se à experiência de quem, após grande sofrimento, pôde descobrir a extraordinária dimensão do consolo e da misericórdia divinos e/ou a bondade inesperada dos semelhantes usados por Deus, e assim sentir-se afortunado.

 

Tal como a bem-aventurança anterior, esta destaca o fato de que só quem se assemelha a Jesus Cristo, só um crente, portanto, – diferentemente de alguém que é do mundo e vive segundo os valores terreais – pode compreender o extraordinário alcance das palavras de Jesus em Lucas 6.25 que, de forma incisiva, admoesta os incréus mundanos que vivem para evitar a necessidade de chorar, buscando apenas o que é fugaz, como os prazeres, o dinheiro, o riso fácil: “… Ai de vós, os que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar”.

 

Aliás, é significativo o fato de que inexistem registros, em qualquer lugar, mas em especial na Bíblia, de que Jesus alguma vez tenha rido. Sabemos que ele ficou irado, que teve fome e sede, que se cansou, mas nenhuma indicação há de que o Senhor tenha emitido uma risada. Entretanto, lemos que ele chorou junto ao sepulcro de Lázaro, e João 11.35 narra que “Jesus chorou” também defronte a Jerusalém, ao observar a cidade pouco antes de Sua morte, como Lucas 19.41 relata: “Quando ia chegando, vendo a cidade, chorou…”.

 

O apóstolo Paulo era também um homem que chorava espiritualmente, – como o verdadeiro cristão deve fazer ao constatar suas inatas miserabilidade, pecaminosidade e tristeza para consigo mesmo, – ao clamar em Romanos 7.19, “Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço”, e em 7.24: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?”.

 

Mas como crentes também choramos por causa dos pecados alheios, pela miséria da humanidade caída, pois sentimos que vivemos cercados por uma tenebrosa conjuntura mundial enfermiça e infeliz gerada pelo pecado, porque, como lemos em 1 João 5.19: “Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno”. E isto nos entristece como crentes, e então choramos no espírito.

 

Portanto, também é possível descortinar nesta bem-aventurança um segundo sentido: felizes aqueles que se entristecem profundamente com toda a dor e sofrimento que existe no mundo, e isto nos leva a considerar como este planeta seria um lugar pior para se viver se não existissem pessoas abnegadas que, – conscientes de que não há cristianismo sem preocupação com o semelhante, – condoídas da miséria e do sofrimento de outros, ao dedicar-se de corpo e alma a mitigar suas carências, com isto granjeiam para si grandes doses de felicidade.

 

Mas o conceito central desta bem-aventurança é certamente o ensino do Mestre de que felizes são aqueles que sentem-se extremamente aflitos, tristes e envergonhados por causa de seus próprios pecados, transgressões e indignidades, e só podem sentir-se assim as pessoas que estão arrependidas de suas transgressões e têm consciência dos males que provocaram para si e para outrem.

 

Jesus nos exorta em várias de Suas mensagens, como em Marcos 1.15, dizendo: “Arrependei-vos”. Talvez nós não tenhamos ainda avaliado devidamente a gravidade de nossos pecados, da mesma forma como ainda não temos ideia precisa da majestade do Deus contra quem nos rebelamos deliberadamente. Jesus morreu na cruz e foi então que o próprio Deus em Cristo recebeu a penalidade que era destinada a nós. Por isso é no sofrimento de Jesus na cruz que podemos perceber a real dimensão das consequências dos nossos pecados, então nos entristecermos profundamente e chorarmos por nós mesmos com horror pelo mal que cometemos.

 

Como o cristianismo inicia-se com a consciência do pecado, o homem feliz é o que nasce de novo e sente intensa dor por seu pecado, pelo que ele mesmo provocou em sua vida e na de outras pessoas, pelo que atentou contra Deus e contra Jesus. Então ele pode ter a certeza de ser consolado, porque Deus não rejeitará “… um coração humilde e arrependido (Salmos 51.17 – NTLH), pois na vida existe um princípio divino imutável: a alegria do perdão só pode ser alcançada passando pela tristeza aterradora do arrependimento. Assim sendo, muito feliz é aquele cujo coração padece com o sofrimento do mundo e com seu próprio pecado, porque é por meio deste padecimento que encontrará a alegria e a paz de Deus.

 

As lágrimas nos ensinam mais que o riso, por este motivo alcançar a verdadeira felicidade é impossível sem chorar. Jesus nunca prometeu felicidade transitória, prazer mundano ou prosperidade terrena, mas sim a felicidade na sua forma mais profunda, completa e permanente, pairando acima das circunstâncias exteriores para aqueles que O seguem a qualquer custo e produzindo em seus corações uma inundação de esperança, gozo e paz. Até mesmo as inevitáveis aflições, que o Senhor em João 16.33 nos advertiu que teríamos no mundo, podem ter efeitos construtivos em nossa vida se as enfrentarmos com sabedoria, firmados em Deus e obedientes à Sua Palavra Bendita.

 

Dificilmente crescemos espiritualmente nos períodos da existência em que navegamos por mares tranquilos, quando tudo está bem; porém quando encaramos águas turbulentas e nossas forças, habilidades e fé são postas à prova, constatamos que passada a tormenta nos tornamos mais maduros, experientes, fortes e preparados para os novos enfrentamentos que por certo virão ao longo de nossa jornada terreal. E esta, precisamente, é a razão pela qual Deus permite que tenhamos tribulações, para que se transformem em grandes bênçãos ao criarem espaço para que seja ministrado o consolo divino.

 

As Escrituras Sagradas sempre anteviram o advento de Jesus Cristo como aquele que viria para revelar Deus aos homens, destruir as obras do diabo, ser um sumo sacerdote misericordioso, cumprir a aliança davídica, ser exaltado, prover um exemplo de vida e um sacrifício pelo pecado, e em suas páginas podemos encontrar vários exemplos relacionados com esta bem-aventurança.

 

Antecedendo em mais de 700 anos as palavras de Jesus, Isaias 61.1-2 (ARA) já descrevia o ministério do Messias em Sua primeira vinda, dizendo: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiu para pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados de coração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados; a apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; a consolar todos os que choram”.

 

Mais à frente, no Salmo sapiencial 119, dedicado à lei do Senhor, o autor transmite a ideia de que tudo o que o homem necessita conhecer está nela registrado, e nos versos 67,71-72 (NTLH), mostra a relação consequente entre o sofrimento vivenciado e o ganho auferido: “Antes de me castigares, eu andava errado, mas agora obedeço à tua palavra. Foi bom que eu tivesse sido castigado, pois assim aprendi os teus mandamentos. A tua lei vale muito mais para mim do que toda a riqueza do mundo.”

 

Em Eclesiastes 7.2-5 (NTLH) Salomão, através de uma série de ditos de natureza proverbial, oferece sábios conselhos que apontam para a fugacidade da vida humana e a necessidade de nos atermos às atitudes que trazem conhecimento e sabedoria, embora estas nem sempre sejam as mais prazerosas: “É melhor ir a uma casa onde há luto do que ir a uma casa onde há festa, pois onde há luto lembramos que um dia também vamos morrer. E os vivos nunca devem esquecer isso. A tristeza é melhor do que o riso; pois a tristeza faz o rosto ficar abatido, mas torna o coração compreensivo. Quem só pensa em se divertir é tolo; quem é sábio pensa também na morte. É melhor ouvir a repreensão de um sábio do que escutar elogios de um tolo.”

 

Como escreveu Paulo em 2 Coríntios 7.10 (NTLH), o choro construtivo é aquele provém dos que se horrorizam com a constatação de seus próprios pecados e dos de seus coetâneos, mostrando a abissal diferença que existe entre a tristeza permitida por Deus e a tristeza do mundo: “Pois a tristeza que é usada por Deus produz o arrependimento que leva à salvação; e nisso não há motivo para alguém ficar triste. Mas as tristezas deste mundo produzem a morte.”

 

O apóstolo Tiago, no capítulo 4 de sua carta repreende o mundanismo dos crentes em toda a parte, e nos versos 9-10 (Bíblia Viva) exorta-os ao arrependimento como pré-requisito para a felicidade, dizendo: “Haja lágrimas pelas coisas erradas que vocês fizeram. Haja arrependimento e aflição sincera. Haja tristeza em vez de riso, e desgosto em vez de alegria. E então, quando vocês sentirem a sua indignidade diante do Senhor, Ele levantará, animará e ajudará vocês.”

 

Por isso tudo, fica-nos a certeza de que o Senhor nos diz que é crucial que renunciemos ao nosso orgulho pertinaz, à nossa arrogância deletéria, ao nosso amor próprio descabido e à nossa autossuficiência desprovida de sentido, e contritos derramemos lágrimas de vergonha e dor por nossos muitos pecados, buscando o inenarrável conforto mitigador de Deus que nos perdoa e que no Estado Eterno – tal como lemos em Apocalipse 21.4 – nos “…enxugará dos olhos toda lágrima…”.

 

Uma profunda consciência de nossa pecaminosidade, aliada a uma elevada necessidade da alegria cristã, produzem o crente verdadeiro, feliz em sua essência, que chora mas é consolado, que sabe que para atingir esta condição precisa estar permanentemente debruçado sobre as Escrituras Sagradas, estudando e meditando sobre elas, orando sem cessar, rogando que o Espírito Santo o guie, corrija, fortaleça e faça-o conhecer a Jesus Cristo de forma cabal.

 

Continua a seguir, com o próximo artigo: Ser Feliz – A Vida Controlada por Deus

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EX-ESCRAVOS

“… Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, (…) as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes, (…) as coisas insignificantes do mundo, as desprezadas e as que nada são, para reduzir a nada as que são, para que ninguém se vanglorie diante dele”. 1 Coríntios 1.27-29 (NVI)

A Igreja Primitiva era integrada por pessoas simples e humildes, e esta era uma das principais riquezas do cristianismo nascente. O Império Romano dominante contava com sessenta milhões de escravos, tratados por seus ricos amos como “coisas”, e o cristianismo teve o poder de convertê-las em pessoas, homens e mulheres genuínos, filhos e filhas de Deus, dando aos que não tinham vida, a vida eterna. Agradeçamos hoje e sempre ao Senhor, porque nós mesmos somos ex-escravos, porém Jesus Cristo libertou-nos do cativeiro do eu, dos pecados do passado, das fraquezas do presente e do medo do futuro!

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