dezembro 2013

Perdão

Em meados do século XVIII missionários morávios que estavam empenhados em evangelizar os esquimós, depararam-se com uma dificuldade insuspeitada que colocava um enorme desafio para a sua missão. Não havia na linguagem deles, o inuíte, uma palavra que significasse perdão, conceito que para eles era desconhecido. Depois de muita oração, estudo, pesquisa e discussões, a saída encontrada foi cunhar uma nova palavra que fosse composta por outras já existentes e por eles conhecidas, ou seja, um neologismo. E entãoREAD MORE

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O Salmo 42 e Eu

Por Winston Ramalho

Conta-se que o organista daquela igreja na Alemanha estava estudando uma peça de Mendelssohn sem muito sucesso, e sua concentração era tão grande que não notou que um desconhecido havia entrado na igreja vazia. Frustrado após horas de estudo improdutivo, guardou a partitura na pasta e preparou-se para ir embora. Caminhava melancólico e pensativo pelo corredor central do templo, e quando já ia passar pela porta para sair à rua, levantou os olhos do chão e viu que o estranho foi na sua direção e então fez uma pergunta surpreendente: “Posso tocar esta peça?” A resposta irritada veio rápida e incisiva: “Nunca deixo ninguém tocar neste órgão!” Mas, após mais dois pedidos insistentes e corteses, o músico amuado deu a sua permissão com relutância. O estranho sentou-se, começou a tocar, e aquele santuário encheu-se de uma música tão sublime, tão bela e perfeita como nunca o organista tinha ouvido. Quando os últimos acordes mágicos cessaram, o organista abriu os olhos como quem acorda de um sonho, e perguntou extasiado: “Quem é você?” O homem respondeu: “Sou Felix Mendelssohn.” O organista tinha quase impedido o criador da música de tocar a sua própria maravilhosa criação! E há momentos em que nós também tentamos tocar as melodias das nossas vidas por nós mesmos e impedimos o nosso Criador de torná-las mais belas. Tal como aquele teimoso organista, precisamos deixar o Criador de tudo nos mostrar o melhor que pode ser feito, pois como Martinho Lutero afirmou, “a música é presente de Deus e não invenção dos homens”.

Tanto Lutero quanto Calvino, em sua época, foram tachados de iconoclastas, e disseminou-se o mau entendimento de que a fé reformada não admitia a arte. Tais idéias não correspondem à verdade, e prova disto é a arte reformada no campo da música, que tem representantes de renome como Buxtehude, Bach, Tellemann, Häendel, para citar apenas alguns exemplos. Os objetivos da arte, segundo Calvino, são glorificar a Deus e trazer o bem ao homem, e ele acreditava que a música possuía o poder de inflamar o coração humano com zelo espiritual, trabalhando-o para essa finalidade. Para Calvino, em Comentários aos Cinco Livros de Moisés, a arte tem a função de nos revelar uma realidade mais elevada do que aquela que é oferecida pelo mundo, e ele dizia que A invenção das artes e outras coisas que servem ao uso comum e ao conforto desta vida é um dom de Deus que não é de desprezar e uma virtude digna de louvor.

Mas, voltando a Felix Mendelssohn: quem foi ele? Jakob Ludwig Felix Mendelssohn Bartholdy (Hamburgo, 3 de fevereiro de 1809 — Lípsia, 4 de novembro de 1847) foi um compositor, pianista e maestro alemão do início do período romântico. Algumas das suas mais conhecidas obras são a suíte Sonho de uma Noite de Verão (que inclui a famosa marcha nupcial), dois concertos para piano, dois concertos para violino, doze sinfonias compostas entre os 12 e os 14 anos de idade, cinco grandes sinfonias, cerca de 100 lieder, duos, trios, quartetos, quintetos, um sexteto, um octeto, e os oratórios São Paulo e Elias, entre outras peças importantes.

Ao contrário de muitos compositores eruditos – que tiveram vidas conturbadas e infelizes – Mendelssohn nasceu em uma família rica, culta e bem estruturada, e teve uma vida feliz, tranquila e muito bem sucedida tanto profissional quanto pessoalmente. Era filho do banqueiro Abraham Mendelssohn e de Lea Salomon, neto do filósofo judaico-alemão Moses Mendelssohn, e membro de uma família judia notável convertida ao cristianismo.

Felix cresceu num ambiente de intensa efervescência intelectual e começou a compor aos nove anos de idade. As maiores mentes da Alemanha eram visitas frequentes na casa da sua família em Berlim. Abraham e Lea deram a Felix, a seu irmão Paul, e às suas irmãs Fanny e Rebeca, uma educação de alto nível. Sua irmã Fanny, tornou-se conhecida pianista e compositora, só não tendo crescido mais profissionalmente por conta da oposição paterna que – dentro da visão típica da época – via a mulher apenas como esposa e dona de casa.

Mendelssohn foi uma criança prodígio. Escreveu e publicou o seu primeiro trabalho, um quarteto com piano, aos treze anos. Não só na Alemanha, mas também na Inglaterra, a reputação de Mendelssohn como músico manteve-se elevada durante muito tempo, e a Rainha Victoria demonstrou todo o seu entusiasmo e admiração por ele quando, no Crystal Palace em 1854, após sua morte, mandou construir uma estátua em sua homenagem.

Mendelssohn está incluido entre os grandes mestres da música clássica ou erudita – e embora a sua produção musical secular seja vasta e reconhecida até hoje como de altíssima qualidade, sendo executada em todas as salas de concerto pelo mundo – muitos estudiosos consideram que a melhor parte de sua obra está na música religiosa, com o Salmo 42 e o Oratório Elias despontando no ápice da sua criação.

O Salmo 42, coincidentemente também opus 42 de Mendelssohn, foi composto… sabem onde? Durante a viagem de lua-de-mel de Mendelssohn, em 1837. Seu amigo Ferdinand Hiller, conta que ficou atônito quando o encontrou de volta de sua viagem de núpcias, e então escreveu: “Para meu espanto, ele me mostrou o resultado musical de sua viagem, a partitura do Salmo 42! Minha surpresa não precisa de explicação, porque naquele momento somente vi o título do trabalho, mas depois pude perceber a ternura e o sentimento profundo que permeava toda a composição, e que tinha sua fonte na total confiança em Deus e o sentimento de absoluta submissão à Sua vontade. Esta é a principal característica da obra, e que demonstrava a perfeita felicidade que Felix sentia neste período de sua vida.”

A parte do plano de Deus para minha vida – que talvez pudesse ser chamada de “O Salmo 42 e Eu” penso que Deus começou a compor no ano de 2003. O cajado do Senhor me havia tangido suave, amorosa, porém firmemente à Sua casa de oração, onde certo dia ouvi o coral da igreja, que cantava em um dos cultos. Sempre gostei de cantar, já havia por mais de 5 anos participado do coral do colégio onde cursara o segundo grau, e então pensei comigo: e se eu cantasse neste coral? Seria aceito? E será que teria tempo para me dedicar a ele? Afinal, na época trabalhava noite e dia em meu escritório de arquitetura! E assim passou-se um ano e meio, até que em um domingo encontrei o maestro e num impulso, perguntei: “Maestro, tem um lugar para mim no coral?”, ao que ele – como sempre faz com todos os que manifestam desejo de cantar – respondeu: “Sim, venha quinta-feira às 19:30 para o ensaio”.

Na quinta-feira cheguei, mais tímido do que já sou normalmente, e o coral ensaiava o Salmo 42 de Mendelssohn. Então o maestro me surpreendeu dizendo: “Você vai cantar primeiro tenor!” “Uau”, pensei comigo. Não cantava havia décadas, sentia minha garganta cheia de teias de aranha, lembrava apenas que tinha cantado como tenor, mas… primeiro tenor? Lembrava que era um tanto agudo… E ele nem sequer tinha me ouvido cantar! “Enfim,” pensei, “ele deve saber o que faz, vamos lá, ver o que acontece!” Foi uma luta e tanto! Por fim, após muito trabalho, muitos ensaios, apresentamos a peça no aniversário do coral, e eu, que tenho uma certa dificuldade para chorar – como aliás muitos homens – me surpreendi em vários momentos, sentindo a garganta  embargada e os olhos marejados de lágrimas, quase não conseguindo cantar.

Era esta a primeira marca indelével que Deus, através do Salmo 42 de Mendelssohn colocava na partitura da minha vida.

Passaram-se os anos, e agora estamos em setembro de 2008. Era o dia 25, uma quinta-feira de ensaio, e então surge para cantar uma figurinha linda, encantadora, elegante, mas um pouco deslocada – como é natural quando se vem pela primeira vez a um lugar desconhecido. Quem era ela? Sim, a Nanny. O que estávamos ensaiando novamente? Sim, o Salmo 42! Os mais novos no coral, na época, eram o Lucas Maracci e ela, e para ambos gravei um CD com o Salmo 42 e outras peças de Mendelssohn.

E aí tudo começou para nós, e a segunda marca indelével o Senhor colocava na partitura da minha vida.

O tempo continuou passando, e agora já estamos no mês de abril de 2009, dia 4, um sábado, e nós estamos casando na igreja, sob os olhares amorosos dos queridos irmãos do coral e dos familiares de fé e de sangue, todos juntos, banhados pelos acordes do… Salmo 42!

Mais uma bênção o Senhor derramava sobre mim, e a terceira marca permanente – mais um belo tema colorido, brilhante, iluminado, feliz – Ele começava a inserir na melodia da minha vida! E esta melodia que hoje vivemos juntos, Nanny e eu, o Senhor compôs para que pudéssemos servi-Lo em espírito e em verdade, como temos procurado fazer a cada dia.

Deus, nosso Pai e Criador, como Supremo Artista que é, constrói o plano da nossa vida como uma maravilhosa obra musical única, rica, colorida, de sonoridade ímpar, empregando notas brilhantes e iluminadas, compostas com uma criatividade que só Ele possui, e que está muito acima de nossa limitada capacidade de concepção. Quantas vezes, quando Ele se encontra no meio de Seu divino processo de criação em nós, e nos vemos engolfados por circunstâncias difíceis, penosas, que fogem totalmente ao nosso controle, não temos a mínima ideia do resultado final daqueles eventos nos quais nos vemos envolvidos. E perguntamos: “Meu Deus, estou perdido, e não compreendo o que o Senhor quer de mim, e para onde tudo isto vai me levar!” E então oramos como Davi no Salmo 64.1: Ouve, ó Deus, a minha voz nas minhas perplexidades…”. Mas, embora muitas vezes não nos responda, porque deseja que confiemos nEle, nosso Deus em sua onisciência sabe perfeitamente qual será o desenlace final de tudo, porque tudo está sempre sob Seu soberano controle. Se fizermos uma retrospectiva de nossa existência, veremos que apesar de formar uma composição musical extraordinária, ela no entanto contém trechos sombrios, tristes, melancólicos, mas que têm uma função importante: ressaltar, valorizar, constituir-se em um fundo para realçar as passagens coloridas, iluminadas e brilhantes, que são aquelas que o Senhor deseja que sejam as mais destacadas. Os fragmentos de tons mais cinzentos também representam o aprendizado, as duras lições indispensáveis, e nós mesmos os criamos, pela vontade permissiva de Deus; as passagens mais alegres, entusiásticas e felizes são obra de Sua autoria, e compõem nossa vida como Ele a concebeu em tempos imemoriais, como Paulo ensina em Efésios 1.4, que em conjunto com Tito 3.7, nos diz que: “… nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele (…) a  fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna”.

Senhor, grandioso Pai e Criador, “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma”, compuseram os filhos de Coré no Salmo 42, ou como costumamos cantar, “Como o cervo clama por água, minh’alma anseia, ó Deus, por Ti”. Senhor, sabemos que este deve ser um clamor permanente em nossas vidas, e queremos estar sempre sedentos de Ti, seja em meio a tristezas, seja quando a alegria nos domina; mesmo que nossa alma esteja abatida, mesmo que nossos inimigos zombem de nós, confiados na Tua misericórdia, esperamos em Ti,  pois ainda O louvaremos, a Ti, nosso auxílio e nosso Deus sempre presente. Em nome de Jesus. Amém.

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O Conhecimento Fundamental (parte 2)

O ser humano é um grande paradoxo: geralmente investe todo o seu tempo, dinheiro e energia nesta vida finita, e desdenha a vida infinita, como se a finita jamais fosse terminar e a eterna não existisse. Quando os filhos são pequenos, os pais se preocupam em dar a eles uma boa formação escolar, investemREAD MORE

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